domingo, 13 de março de 2011

Capítulo 3

Rialú

Uma das coisas mais difíceis de ter um dom é quando você tenta ter um controle sobre si mesmo... Tentar não estar sempre na mente de alguém sem perceber, tentar não fazer alguém sofrer por um simples sentimento ruim, tentar não criar um caos só por aparecer no meio de uma multidão. Mas o foda é quando você quer fazer essas coisas... E você faz.

Continuava frio na capital da Irlanda, mas a chuva havia diminuído há uns dias... O céu ainda era nublado e o ar estava sempre úmido. Em certos pontos a grama parecia levemente esbranquiçada, porém era quase imperceptível e a neve não caia... Pelo menos não que eu tenha visto. No pátio do orfanato, crianças brincavam no chão escorregadio e casais adolescentes se encontravam escondidos em lugares cada vez mais improváveis, onde as monitoras ainda não haviam encontrado.
- Que roupa é essa, Rachel? - disse Jessica, com seu tom de desprezo de sempre.
- A minha roupa. Algum problema? ­- encarei-a.
- Ér... Problema? Não... Só queria comentar que ficou lindo em você!
Eu sabia que não era o que ela diria se eu não estivesse em sua mente. Mas eu estava... E não queria ser humilhada pela minha melhor amiga na frente de todas aquelas garotas. Garotas que agora me desprezavam por ter recebido um elogio e ao mesmo tempo queriam babar meu ovo por estar linda. Eu não queria que enchessem meu saco. E elas não encheram.
Chegamos ao refeitório na hora do café, quando encontramos aquela virgenzinha fingida da Laura. Falsa! Todos achavam que ela era uma santa, mas Jessica sabia que ela não passava de uma fingida... E no fundo eu sabia o porquê.
Quando éramos amigas, Jessica começou a responder minhas perguntas mentais com os próprios pensamentos, sim, já fomos amigas... Eu estava namorando o Ricardo. E ela morria de inveja. Eu sempre soube disso, estava estampado na cara dela! Era como se eu pudesse ler a mente dela, pensou, e então um dia a vadia aparece atracada com ele aos beijos no beco perto dos brinquedos infantis, lá fora. Eu denunciei, é claro, mas acreditaram na pobre Laura... E então eu virei a vilã.
E cheguei a acreditar que Jessica era a piranha... E no fundo ela fazia o tipo! Parecia autoritária, superior... Na verdade Jessica era superior, todos sabiam - ou deveriam saber... E eu podia fazer com que eles soubessem...
Mas a dor me consumiu. Eu perdi o controle da minha mente, quando de repente lá estavam todos os pensamentos daquele lugar... Todas as vozes, todos os gritos, todos os sentimentos... Pessoas borbulhando de raiva, outras gritando de felicidade. Eu não conseguia me concentrar em uma só mente, eu não conseguia me concentrar em nada!
Gritos de dor consumiam minha mente e, pela primeira vez, eram meus... Abria minha boca, mas o som não saía... Pessoas começaram a me rodear, mas não soube identificar seus rostos. A preocupação estava em suas mentes e eu não conseguia tirar da minha. Minha mente era deles, agora, e eu não tinha mais o que fazer. Então eu fechei os olhos.


Abri os olhos como se fosse a melhor coisa do mundo, aproveitando cada momento da claridade tomando conta do meu campo de visão. Aparentemente eu estava deitada... Meus olhos ardiam com a luz, mas era uma sensação de despertar de um sono profundo. Minha cabeça ainda estava doendo com a confusão e ecos de vozes pareciam zumbir aos meus ouvidos... Olhei para os lados para me localizar e logo vi uma enfermeira que vinha até mim.
- Que bom que acordou... A Sra. Frigda disse que você desmaiou no refeitório do orfanato, mas ninguém sabe o porquê. - a voz dela era calma, mas tentava esconder um nervosismo. Ela queria saber o que aconteceu, mas não estava com saco para aquilo.
Não venha me encher o saco agora!
- Ah, preciso ir agora, uma pena! Conversamos mais tarde.
Katy saiu do quarto do hospital num piscar de olhos, me deixando sozinha.
Então... Eu estava desacordada há dois dias e a Sra. Frigda resolveu me mandar para aquele hospital na primeira noite depois do desmaio... Ninguém sabia o que aconteceu... Isso era bom - ainda era um segredo.
O dia foi passando e aquele ambiente monótono me deixava numa angústia infernal... Ninguém chegava, desde que expulsei aquela sonsa. Algumas macas ao meu lado estavam ocupadas por pessoas com diferentes histórias, que me deixaram encantada e, ao mesmo tempo, nauseada. Mas eles ainda tinham um apoio. Alguém a quem pedir ajuda, pessoas que realmente se importavam com eles. Eles tinham pais.
E a noite caiu.

O lugar estava mais frio, mais doloroso. As vozes que ouvi durante dois dias continuavam gritando. A dor me devorava, como uma cobra atacando um rato. O lugar pareceu se fechar contra mim, mas aberto a outras opções. Mas o lugar era meu, que opções poderiam ser essas? Quem poderia estar lá?

8 comentários:

  1. Incrível como você sabe descrever os pensamentos de uma mulher melhor do que ela mesma! Tô adorando! :) Mal posso esperar pelo o quarto capítulo! ;)

    Beijos.

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  2. Amei! realmente a descrição é perfeita!

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  3. Adorei, é mto perfeito. To anciosa pra ler o quarto capitulo!
    bjoO

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  4. QUEM??????????????? WUAAAAAAAA

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  5. Táá mtmmtmtmt foda *0*
    QUERO O 4° LOGO.

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